Caixote

Eu, no que cabe de mim em mim
E não falando do que transborda
Estou encaixotado,
Com data, selo, fechadura
Mas sem destino.

Mudam o caixote para lá
Colocam o caixote aqui.
O que há dentro?
Já me esqueci.

Às vezes se aproveitam da minha mudez caixotal
E sobem em cima, colocam outras coisas
Usam de suporte.
Por que não grito?

Dentro de todo o meu conteúdo delimitado por papelão
Mora aquele que me esqueci que sou
Mofa aquele que talvez eu nem tenha sido
Mas que faz falta.

Para onde, João?

 

João Pedro Innecco

Vox populi

Um grito não é só voz
É explosão rouca dentro da boca
É saliva que fica presa louca pra cuspir
Milcoisasaomesmotempo
Esse choro é corda vocal de massa de modelar
(fácil fácil de distorcer)
Constrói pedidos legítimos em frases tortas

Que bocas moralizem as bombas
Que flores lacrimejem os gases.

João Pedro Innecco

Fora do rumo

Fora do rumo e no meio do salto
É quase espaço sideral.
(Imenso e insuportável)

Chega de cárcere.
Chega de ser mártir de mim mesmo.
O que quero agora é ser feliz
– Abandonar os sonhos ou reaquecer a alma?

No zunido dos ouvidos
O que me resta é escutar
O rufar desse coração
Que suporta demais.

Ainda bem que sou fênix
Que transita em morte e vida
E que suporta nos ombros
O peso de ser sonhador…

E ao questionar, em meio à tristeza
Que se materializa em lágrima,
Se tudo isso valerá o futuro…
Silêncio que é medo e dúvida.

João Pedro Innecco

Prece

Destituo o teu ser em prosa à toa
Esmago em mim os teus restos de carne boa
Em balanço contínuo, navego por entre as dores do perder
Aceito as verdades do esquecer

Honesto, olho com olhos de chama cinza
Construo o poema para acabar com a cela
Aquela que te sustenta no teu pedestal
Talvez o que eu criei para ti

Talvez o que criaste por você,
Mas retiro os privilégios do teu nascimento
Talvez não com a veracidade universal,
Talvez não com só aquilo que digo.

Restituo a pungência ao seu lugar
Abandono as lamúrias na esquina que te armazenei
Caminho batendo no chão o ferro do amor gasto,
A ferrugem do que cultivei.

Marco o teu nome no fogo da minha memória
Amasso em brasa as mentiras que criei
E as verdades que assumi como favoráveis,
As que fomentam a fecundidade incontrolável do destino.

Destino esse que me escreveu paralelo a ti
Que como fucinheira, criou uma tentação passível de tatuagens e
Cabível nas literaturas,
Provavelmente não das belas.

Tudo que eu juntei como possibilidades
Agora mora no homem que construo no anti-pensamento
Às cegas, no automático, e que sofre com as imutabilidades.
Não de ideias. Dos fatos.

Afogo as teimosias no mesmo mar que banhas teus sonhos
Demonstro, com cara de vencido, a ferida ainda latejante
Ao mesmo passo que balanço para quase cair ao pé do altar
Junto da prece que criei para te cultuar, te cultivar.

Procuro e martelo em pregos permanentes,
Na parede suja da carne-viva já quase dormente,
O antídoto para tuas toxinas embriagantes:
O anti-tudo na anti-prece do teu não ainda – embora quase – anti-ser.

João Pedro Innecco

Florescer

Me deixe entrar ou pare, por favor.
Não aguento mais a ânsia fundamental
Que me move na hora errada,
Que me lembra em pungência cardíaca, a vontade
Colossal de encerrar o meu próprio amor, no amor de nós…

Amor que belisca a face em meio ao riso,
Que fecunda o âmago da confidência,
Que resgata o ar no gozo da intimidade,
Força propulsora do rufar vital.

Sedução esmagadora que põe em pedaços a esperança,
Que me tira a fome e o silêncio,
Que me burla o sono em imensa escuridão inquietante,
Aquela que me faz um miúdo perante o sonho…

Permita-me, então, unir-me a ti e,
Como uma bomba iminente, fazer transbordar o devotar
Tão esperado, aquele que te aguardou muito
No espaço tênue e incerto do florescer.

João Pedro Innecco

Incêndio

É difícil conter esse suspiro. O chato é não saber de onde ele vem ou veio – tanto faz. É o tal estar apaixonado sem sentir de verdade. Já me apaixonei pelo nada. Aliás, todo dia eu invento amores e teço palavras tão carregadas de verdade… Mas no fundo finjo. O que há de mal? O poeta não é um fingidor, no fim das contas? Escrever não é retratar e fantasiar ao mesmo tempo? Não sei, só o que sei é que vivo suspirando sem saber o porquê.
Adoro as quebras de expectativa. Amo direcionar as pessoas – os leitores, para ser mais exato – para um caminho e depois mudar o fim. Detesto fazer disto tudo um enorme diário como uma forma egocêntrica de fazer com que leiam o que penso realmente. Uma andorinha só não faz verão assim como uma verdade não faz magia. Mentir é necessário. Se revelar é ingenuidade demais para a perversidade literária. Ser como autor o narrador é risco demais, é exposição demais. Há sempre uma coisa a se criar…
Escrever é perpetuar a atuação, é ter nas mãos todo o poder de ser o criador e a primeira vítima ao mesmo tempo. Há pessoas que vão estranhar o que digo, mas os meus mais profundos e verdadeiros textos não são feitos de verdade. Nada é inteiramente aquilo. Nem tudo foi um sim. A história, por mais que começada por um sim, não é conduzida apenas por eles. Nem tudo o que se lê é verdade verdadeira. O que se esconde nas paredes da antiguidade para formar o que hoje é puro ninguém sabe. E como saber? Então nenhum texto é inteiramente o autor. Há sempre um extra. Há sempre um sabor. Há sempre – no fim das contas e por mais ignóbil que seja encarar – uma linda, e brilhantemente arquitetada, mentira.
Costumo dizer que toda mente artística é uma mistura de surto com lucidez. Expressar fúrias ou alegrias não é tão claro quanto parece. Faz tudo parte de uma revolução louca dentro da gente que faz sair as mais cuspidas e pensadas palavras… Faz, sim, tudo parte de uma gigante explosão. E não me canso: escrever é implodir e explodir – novidade de qualquer ângulo. Não é à toa que um momento banal faz belas artes…
Enfim… Revelei aqui parte do acontecer poético. Usei pouquíssima retórica neste texto – não estou com muitos luxos, pois minha qualidade de escrita andou caindo. Mas foi delicioso revelar aqui um pouquinho do surto e da lucidez que agora estão se fazendo na minha mente. Só não sei se tudo aqui é verdade e nem sei dizer agora onde maquiei o meu texto, mas fiquem certos: escrever, definitivamente, não é revelar ou descobrir; é incendiar.

João Pedro Innecco

Libertador

Libertador… Sabe o que acho libertador? Poder sentar e olhar com calma a paisagem. Mas sem culpa nenhuma, sem pressa, sem medo de se atrasar… Olhar pras dobras que as ruas fazem e ficar imaginando todas as curvas e contorções que a vida já deu e ainda dará. Pensar um pouco em alguém, esclarecer na mente todo o agora, explicar o futuro pra você mesmo. O problema de fazer tudo sem pensar muito é não direcionar o objetivo. Às vezes até nós mesmos precisamos nos ditar as regras para que não saiamos da linha. Assim como fazer tudo só pensando no amanhã também é inválido, pois no que adianta não ter o presente correto e ativo?
Não sei o porquê, mas hoje acordei com a sensação de que tem algo estranho dentro de mim. Um vazio enorme… É triste senti-lo. Pode parecer besteira, mas não é. Sabe quando você está sentindo uma frustração enorme e não sabe o porquê? Foi assim que eu acordei. É óbvio que eu especulo com o meu olhar de lupa todos os meus atos. Mas nenhum deles responde todo o questionário que em mim se fez nesta manhã.
Mas tudo isso, todo esse sentimento que parece lâmina continua cruelmente indizível. E indizivelmente cruel também. Não é à toa que procurei o papel pra tentar explicar pra mim mesmo o que está morando dentro dessa caverna que sou. Será vontade de mudar? Será vontade de falar, de chorar? Mas chorar o que? Repito: chorar o que? De todos os meus defeitos e problemas – de todas as minhas rachaduras – qual resolveu gritar hoje? Qual parte de mim está liberando essa toxina importunável que causa essa intensa bomba relógio? Vai saber…
Eu ainda escrevo por isso. E escreverei até todos os meus questionamentos se esgotarem, até eu conseguir explicar para mim, de uma forma totalmente única e diferenciada, como tudo acontece no mundo. Já estudei toda a química e a física, mas nada me explica o negro buraco que apareceu em mim – nem a semântica, nem a psicologia. O negócio é continuar a explorar a máquina que o homem é. Quem sabe assim, por linhas tortas e completamente alheias a mim, eu descubra o que me persegue do levantar ao deitar, e consiga deixar de ser a maior interrogação que o mundo já conheceu.
Enfim, de todas as palavras que pus pra fora, nenhuma conseguiu me mostrar o erro nessa equação. Fiquei em baixo do chuveiro durante horas pra tentar lavar a alma. Mas nunca conseguirei me atingir se nem eu mesmo me conheço. Essa cadeia inacessível que sou me faz uma incógnita gigante, que finjo ignorar com o som das passadas rápidas. Hoje, a demanda me moldou completamente. O problema é achar a chave que irá resolver a problemática e abrir, de uma vez por todas, as portas dos meus mais profundos e interiores  pensamentos.

João Pedro Innecco