Não. Essa palavra talvez nem me resuma, assim como nenhuma outra que escrevi até hoje. Mas sim, o não, agora, me coloca na melhor das posições, explica a todos o que sou, ou melhor, o que não sou. Não, eu não sou fanático por estudos, eu não sou um desconhecido para mim mesmo, eu não morro de amores por ninguém, eu não sou de pedra, eu não choro à-toa, eu não corro demais, eu não sou parado demais, eu não li tantos jornais, eu não sou tudo aquilo que escrevi ser, eu não sou, por essência absoluta – verdadeira e imutável – aqueles todos que escrevi. Eu sou uma mistura miscível ( visível e incompreensível), de todos aqueles eus que me mostrei ser, de todas as personalidades que se mostraram, em inúmeros textos, reais, permanentes, críveis…
Então sou uma mentira. É o que concluo diante dos fatos. Se enganei tanto a tantos me revelando ser tão tão, sou mentiroso; mais que isso, sou uma mentira. Não – mais uma vez. Não sou falso. Apenas sou de fases inúmeras! Hoje falo a verdade, amanhã já desminto. Não por loucura ou omissão, mas por simples dialética. Transição de idéias, sabe? Então. Já descreveram para mim como é ser assim. Clarice revelou ser sempre ela mesma, mas não garantia ser a mesma sempre. Raul Seixas se disse uma metamorfose ambulante. E eu digo que sou uma reunião, um turbilhão de personalidades loucas e calmas, gritantes e mudas, amantes e frias. E não pense que escolho, nasci assim.
Escrevo para por para fora essa vontade de revelar ao mundo o meu sentimento. E ao revelá-lo, transformo-o nO sentimento do mundo. Aquele que me resume e que mora em tempo integral em mim… Mas não! É tudo parte de um gigante quebra-cabeças que sou. E não pense, também, que gosto ou escolho. Já me imaginou com uma peça perdida? Já me imaginou procurando desvairado qual dos meus pedaços que sumiu, que andou, que voou… Já? Pois não tente. É difícil demais explicar como é ter que me remodelar aos eus que morrem e nunca mais aparecem, é difícil aceitar que mudo de paladar, de opinião, de vontades, simplesmente por causa desses sumiços, dessas mortes.
Exausto. É como eu estou agora depois de ter colocado meu cérebro em profundo trabalho. Fica registrado aqui que esta não é uma fase, mas uma verdade absoluta. Fases são os outros, os seres humanos. Eu não. Não sou fase nem concreto. Sou um quebra-cabeças, como já disse. Me desmonto e me desfaço em um piscar, em outro me remodelo e me construo, me costuro para dentro. Hoje minha palavra, como palavra única a ser dita e aceita, é o não. Não sou aquilo tudo, e nem o nada. Sou o não, a negação, a negação da negação, a negação do nada, o próprio ausentar, o surgir, o negar, o por estar, o NÃO saber.
João Pedro Innecco
Ah, você.. tão mutável, tão incerto..
Tão você!
Parabéns, escritor. ficou maravilhoso.
“Fica registrado aqui que esta não é uma fase, mas uma verdade absoluta. Fases são os outros, os seres humanos. Eu não. Não sou fase nem concreto. Sou um quebra-cabeças, como já disse. Me desmonto e me desfaço em um piscar, em outro me remodelo e me construo, me costuro para dentro.”
O que me tocou foi a solidez do símbolo, isso de um quebra-cabeça ser um punhado de pequenos sólidos, verdades de proporções atômicas, eu diria – e não é à toa que da fissão nuclear se fazem bombas, concorda?
Acho que não comentei desde minha primeira vez aqui (e tem sido mesmo muito difícil me expressar nestes dias de reuniões familiares e conveniências – se bem que, dia desses, fui escrever um comentário para uma das minhas favoritas e ultrapassei cinco mil caracteres), mas venho sempre e ó, muito bom mesmo! Alguns mexem comigo de uma forma mais intensa. Foi o caso deste e, por isso, fiz questão de falar.
Abraço!
Sensacional! Admirável, João!
Ufa!!! NÃo podemos deixar de ler!