Fui à rua comprar pão
Voltei a casa chateado…
A dor no dente não passou,
O liquidificador está quebrado,
O apartamento está um caos,
O dono pior ainda,
E tudo já não funciona,
E tudo já não liga…
(…)
Liguei pra amiga Maria
Maria não estava.
Liguei pro João
João dormiu.
Liguei pra Isinha,
Isinha não quer parar de ver televisão,
Liguei pra mim mesmo e deu ocupado…
Ocupado?
Estou ocupado? Eu?
Como?
Estou aqui livre pra falar comigo mesmo..
Estou com a maior disposição pra encontrar o meu eu
E conversar…
Pobre eu, não receberás ligação
E pobre eu, que ligo e ninguém nunca pode!
Fui atender a campainha,
Chegou o remédio que pedi ontem.
Agora a dor no dente já passou.
Junto com o remédio da dor,
Veio o remédio pra casa…
Tive que mandar a Gegê de volta,
Já estava tudo arrumado.
Como ouso dizer que tudo está nos conformes?
Há tanto drama no meu cérebro nesse momento,
Acho que a cada linha uma nova bomba explode…
Estou em plena guerra interior,
E sou capaz de me trair dizendo que está tudo bem?
Agora a farmácia já fechou…
Não posso pedir um remédio para mentes-que-se-buscam…
Sim
Sim
Mentes-que-se-buscam foi o termo que o médico
Usou para me explicar melhor o meu diagnóstico.
Parece que sofro de um tal de Paradoxus Antitésius Confundus,
Termo em latim que significa Mentes-que-se-buscam.
Aceitei, mas não concordo…
Afinal sou o que sou,
E não o que o espelho me diz.
Mas eu bem que gostaria de ser espelhativo de vez em quando.
Espelhativo é quando você tem vocação pra espelho…
Mas ao mesmo tempo prefiro permanecer invisível…
Não sei, estou em constante transformação
Por isso sou vários em um mesmo dia,
Inúmeros numa mesma noite,
E o mesmo por uma semana.
Tudo isso simultaneamente.
Sabe como?
Tenho alguns eus subordinados a outros,
Nobreza e Servo, exatamente…
Então, essa divisão me permite o paralelismo de personalidade…
Paralelismo de personalidade! É isso, doutor!
Combina muito mais comigo… e com os outros eus também, é claro!
≈
Asa…
Li que a asa é aquilo que a gente planta,
E concordo. Mas em parte…
Acho que a asa surge em tudo,
Afinal a maçã só caiu porque criou asa e voou,
Escolheu uma pista pra pousar, mas errou.
Acidentes acontecem, acabou indo com força demais
Na cabeça de Newton…
Acho que depois desse acontecimento é que tudo ficou com pés no chão,
O famoso medo de errar;
Aquela velha autocensura.
Como um anjo especial, que se chama Augusto,
Já falou,
E irei imitá-lo rapidamente,
(não se preocupem, conversei com ele ontem e ele deixou)
a Consciência Humana é igual a um morcego,
mesmo com janelas fechadas, ela entra no quarto.
É a tal da ideia:
A minha casa está de acordo comigo,
A minha asa está de acordo comigo,
E eu estou de acordo comigo,
Portanto, o único culpado da bagunça,
Sou eu.
≈
Nada e tudo,
Ao mesmo tempo essas palavras não fazem sentido.
Disse que havia escrito uma coisa,
E que esta significava um tudo misturado,
Mas que resultava num grande nada…
Ih! Quantas vezes nossos atos são assim!
Fazemos tudo, e de tudo, mas
No fim, esse tudo corresponde a um grande nada…
Por quê?
Acho que no fim o homem se resume num nada
Inexplicável.
A espécie vem se perpetuando através da multiplicação,
Mas um homem é finito,
E Tudo que ele fará, resulta num Nada quando se vai…
Não digo que os grandes legados são Nada,
Mas digo que para aquele ser, o nada surgiu,
E o tudo fica a dispor da sociedade que ele lutou pra perpetuar…
Engraçado de pensar…
Mas não de uma forma egoísta,
Deixar o mundo melhor do que quando chegamos é uma honra,
Mas às vezes parece redundância…
Pois todos morremos, e simplesmente deixamos o que cavamos
Para trás, sem escolha, e sem decidir quando.
Admiro a morte,
Não de uma maneira maluca ou estranha,
Não acho nada bonito que um ser se vá,
E simplesmente deixe a lembrança do que já foi.
Acho egoísmo para o mundo,
Pois tantas pessoas boas se vão sem motivo!
Admiro a morte pelo que ela pressupõe:
Ela é uma promessa que todos temos,
Sem exceção, um fim.
A ordem natural da vida não pode ser mudada
Por isso eu gosto da justiça da morte,
Ela não escolhe apenas alguns,
Ela é assim com todos os seres,
Dos mais gloriosos até os menos honrosos.
≈
O pilar da nossa era
Foi modificado e esculpido para durar mais,
Foi fortalecido com o dedo do homem.
A natureza se basta, e se completa!
Esse pilar está se rachando com o peso que colocamos nele,
Não paramos de colocar máquinas e gente no mundo,
E não paramos de agredir a nossa casa.
O terremoto aconteceu.
O tsunami está prestes a engolir cinquenta cidades.
O furacão surgiu.
A mim não me surpreende.
(E ainda enfatizo, pedindo licença ao pleonasmo)
Era de se esperar que depois de tanta bagunça,
A terra quisesse assentamento,
As águas quisessem lavar o chão
E o vento quisesse ajeitar os móveis…
Mas de nada adianta um recomeço,
Se a ambição é mais forte do que um terremoto,
Um tsunami e um furacão juntos…
De que vale explorar o pobre,
Se ele já não tem nada?
De que vale apagar o mundo,
Criar outro,
Se a propriedade é inevitável?
É essa divisão que corrompe as relações,
Esse pronome possessivo que polui a mente…
A única dona do mundo é a natureza,
E nós deveríamos baixar a cabeça
Para o que ela manda,
Para o que ela exige,
E para o que ela significa…
João Pedro Innecco